segunda-feira, outubro 16, 2006

No Divã da "Enferma": O Botão Encarnado

Camaradas

Escrevo com a alma dorida, mas com a convicção de que os grandes males do CM, que certamente terão penalizado muitos jovens, continuam ainda a ser largamente suplantados pelo que de bom foi sendo oferecido a tantas gerações.

Sou daqueles que todos os dias obedece à imposição social de usar gravata. Mas, no desconforto, há sempre algo de positivo. O fato que visto permite-me transportar, SEMPRE, uma barretina na lapela, que ostento com o orgulho de ter sido um Menino da Luz.

Confesso que a minha memória não é tão boa como a de alguns camaradas que registam ainda, com enorme clareza, episódios e referências pessoais do seu tempo. A memória é também selectiva e certamente a vivência de situações traumáticas justifica que não se esqueçam ... ou então que se releguem para as profundidades do subconsciente.

Eu também apanhei injustamente, outras vezes com a legitimidade da culpa ....
Éramos miúdos a crescer.
TODOS!
A humanidade produz indivíduos medíocres com regularidade, mas são as sociedades que permitem a sua maior ou menor capacidade de fazer sofrer os restantes. E pontualmente registam-se derrotas relevantes que a todos envergonham.

Experimentei muitos sentimentos no CM.
Trago-os todos comigo, mas felizmente valorizo muito mais aqueles que me levam a colocar a barretina na lapela do fato.

Não se pode de esperar que seja assim com todos.

A brutalidade descrita nos factos relatados é de uma dimensão ... esmagadora. Factos do meu tempo e que eu não tive, na altura, a adequada capacidade de perceber...

Certamente ainda mais dolorosos para quem os viveu na 1ª pessoa e que terão condicionado, irreversivelmente, a sua imagem da Instituição. São as experiências pessoais, que incluem também tudo a que assistimos (na forma como as percebemos), que moldam a opinião.

Continuo a valorizar o CM, não obstante os relatos de alguns camaradas a quem o infortúnio colocou pela frente gente menos recomendável, em proporções desajustados por ocorrências infelizes.

Mas o CM não pode ser classificado pelas suas desgraças escondidas.

Falou-se em cobardia e violência.
E a solidariedade, camaradagem, espírito de corpo ...?
Eu vivi isto tudo e não encontrei, “cá fora, na sociedade civil”, nada que de perto se assemelhasse. Infelizmente.

O CM não é o que está relatado!
Infelizmente faz parte dos capítulos negros da sua história, mas não aceito que se identifique a Instituição com os seus episódios mais infelizes, que certamente serão muitos ao longo de mais de 200 anos.

Aos maltratados pelo CM, não posso deixar de dizer que lamento a vossa experiência pessoal .
Podia ter sido eu e se calhar não usaria a barretina.

... mas não é essa a memória que transporto. Nem o feed-back de tantos outros camaradas que por aí passaram e de outros que se cruzam comigo na rua, com uma barretina no casaco.

E permitam-me concluir com uma última referência.
Por maior respeito e solidariedade que mereçam as vítimas envolvidas nas crueldades descritas, o CM também merece o respeito de uma Instituição centenária que continua a estar associada à promoção de valores de excelência humana.

Não se deixem tentar pela proposta de descrédito do CM, através da sua identificação exclusiva com situações que envergonham qualquer ser humano.

Repito.
O CM não é apenas isso e não merece.

Felizmente!

Abraço colegial
Nuno Monge (101 – curso 74/81)

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Posted by Nuno Monge (101) to No Divã da "Enferma": O Botão Encarnado at 10/16/2006 11:39:41 AM