sábado, outubro 07, 2006

No Divã da "Enferma": O Botão Encarnado

O "Um-dos-40-do-Ali-Babá" foi também um dos meus inquisidores iniciais, na primeira e segunda das 20 ou mais sessões em que tive o prazer orgasmático de ser participante.

Os esbirros da Gestapo, desculpem, os camaradas averiguadores, presentes: o "Fifó" - nome fictício dito por alguém sem língua e sem dentes, o do "Silence of the ..." - nome fictício, o "Bigorna" - nome fictício mas óbvio, o "Bêbado-Filho" - nome fictício ainda mais óbvio, o “um dos 40-do-Ali-Babá” - nome fictício, e pasme-se, o “Sturnus Vulgaris” – nome traduzido do Latim, e o Irmão do “Bêbado-Filho”, larilas mal assumido, que não gostava nem de vinho nem de destilados, mas gritava alto e agudo e irritava solenemente por se revelar tão infantil, para um corpanzil daquele tamanho.

A minha primeira sessão de inquisição espanhola durou cerca de 4-5 horas num Sábado à noite na segunda semana de Janeiro de 1983 – ficámos todos o fim-de-semana retidos – entre as 2 e as 7 da manhã. O inquisidor e anotador de serviço, era o Fifó, o inquisidor auxiliar era o “Silence of the...”. O manobrador do projector de 100W era o “um dos 40”. O “Sturnus Vulgaris” e o “Bêbado-Filho” e o seu Irmão, não fizeram perguntas, à excepção do irmão do “Bêbado”, que de vez em quando, soltava uns gritinhos estridentes quando se irritava com alguma coisa que ouvia e não gostava.

Uma passagem ilustrativa da pertinência e do alcance da “sessão de averiguação:”
-“Em 08 de Novembro de 1982, a que horas, passaste em frente ao antigo pavilhão de Química – na altura o pavilhão do Orfeon?”, a que respondi, pelo horário escolar que tinha na altura:
- “Bom, devo ter passado por volta das 12h50, provavelmente, como devo ter saído das aulas às 12h45...”
-“Ah, tá bem – e ouviste música no pavilhão ou não?”,
-“hmmm.... não sei, já não me lembro....”.
-“Não te lembras? Mentes! Lembras-te sim, a música era do orfeon do Carioca, ou dos Nova Atitude? (grupo de Rock do 129-Slave, do 136, do Badabiz – irmão do Roncon e de mais outro que não me lembro)?” ,
-“Eh pá não sei, nem sei se havia música ou não...”
-“Diz-nos, era do Carioca ou do grupo de Rock?”
-“Sinceramente, já não me lembro...”
-“Lembras-te pois, sabes muito bem, havia música...”
-“Já foi há muito tempo, passamos todos os dias pelo pátio da Enferma após as aulas da manhã, umas vezes ouvimos música, outros não, como me vou me lembrar desse dia em particular?”
-“Não sejas mentiroso, membro dos caprinos com cornos enrolados, sabes muito bem, conta a verdade ou fornico-te esses cornos todos, queres ficar aqui a noite toda?”
-“Não posso garantir, se havia música.”
-“Então estás a dizer que não havia música no pavilhão?”
-“Estou a dizer que não me lembro se nesse dia havia música ou não”
-“Ai o Pénis, fornique-se, filho de uma rameira...” – toma lá uma garrafa de whisky nessa tromba para te lembrares melhor. Tum-Tóim!
Acertou-me felizmente no osso da cara logo abaixo do olho, que por sinal tenho bem robusto, vá-se lá saber porquê, fez ricochete e rolou de novo para baixo da mesa de onde as perguntas também eram disparadas, mas com menos momento cinético.
-“Então agora, refrescou-se-te a memória?”
-“AAH! Eh pá, fod....-se, para que foi isso?... eu não fiz nada para vocês me atirarem com uma garrafa à cara, desta form.... PUM!” – O bigorna tinha vindo por trás de mim, sem que eu me tivesse apercebido, com a dor de ter levado com a garrafa, e tinha-me “emprestado” um soco dos dele, no maxilar.
-“Importas-te de responder às perguntas, filho daquela que vende o corpo, havia ou não música, e era do Carioca ou Rock?”
-“Eh pá já disse que...” – o bigorna começou a ganhar balanço com a mão para me emprestar mais qualquer coisa - ... eh,eh, afinal, pensando bem, era capaz de haver música...” - esbocei um sorriso amarelo.
-“ Ah, assim tá melhor, e era do Carioca ou Rock?”
-“Talvez fosse Carioca, não sei, se fosse Rock, talvez eu até tivesse parado para ir ouvir um pouco porque gosto de os ouvir tocar, por isso, como não me lembro de ter parado lá por esses dias, então se realmente havia música, devia ser do Carioca...”
-“OK, confere! Levanta-te! Mandem entrar o outro Cona e ponham este ali atrás escondido debaixo da mesa, para confrontar com o outro quando for necessário”
Entrou o Alvin a seguir, a chorar. Era o primeiro interrogatório a sério que ia ter mas sabia-se já preparado para ser crucificado. E foi.

Na manhã seguinte,por volta das 08h00, os nossos camaradas averiguadores mandaram reunir a companhia toda no geral em pijama e enrolada em cobertores, e o Fifó apresentou os resultados brilhantes e absolutamente incriminadores, através das notas que foi tomando ao longo da sessão de Sábado à noite:

Sujeito 1 - “Perguntámos ao Cona 1 se havia música no Pavilhão, por volta das 12h30-13h00 de dia 08 Novembro de 1982. Este respondeu que havia música e era do Carioca.”

Sujeito 2 – “Perguntámos ao Cona 2 se havia música no Pavilhão no mesmo dia e na mesma hora. Este respondeu que havia música e era de Rock.”

Facto – “No dia 08 de Novembro de 1982, entre o 12h30 e as 13h00, não havia música nenhuma a ser tocada no Pavilhão velho de Química.”

Resultado – “O Cona 1 e o Cona 2, estão ambos a mentir; o Cona 1 e o Cona 2, estão a esconder qualquer coisa; Companhia, olhem para a cara destes dois senhores, e apontou a minha cara e a do Alvin, e agora façam o que quiserem deles...”. E realmente muito foi feito... muito.

Nunca percebi a relevância de haver música ou não no Pavilhão...

Julgo que teria a ver com o estabelecimento da hora, a que cada um dos suspeitos indigitados, terá chegado à Companhia, porque foi nesse dia que o 439-Bettencourt, após ter chegado à camarata, se achou roubado e se queixou aos graduados que lhe tinham palmado 350 Escudos do armário.

O interrogatório em questão nada tinha a ver com os 350 Escudos do 439, nada tinha a ver com os 150 Escudos que vieram a desaparecer um mês depois do saco preto do 255-Capela, tinha sim a ver com o desaparecimento de uma mini-Calculadora científica com funções estatísticas e trigonométricas, Casio Fx, a qual desapareceu do armário do seu dono, o 82-Freire, indo depois aparecer espantasticamente debaixo do colchão do 315-Matos, dois dias depois, após o roubo ter sido anunciado na companhia e ter havido ameaça de “firmeza”.
Isto foi em Janeiro de 1983. Em Abril de 1983, num incidente que decorreu na viagem de curso dos Graduados, o “Um dos 40 do Ali Babá”, segundo se soube, foi apanhado a roubar dinheiro aos próprios colegas de curso e foi expulso, sendo que nas averiguações que tiveram lugar nessa ocasião, acabou por confessar então que teria também tentado roubar a dita Calculadora ao 82, tendo colocado a mesma debaixo do colchão do 315 para despistar, dado que até se dava muito bem com ele.

Em 1986, eu estava no segundo ano do I.S.Técnico e quando regressava das Aulas, saía do comboio em Vila Franca de Xira e passa-me um gajo a correr, fardado de soldado da Força Aérea. Reconheci-o. Era o “Um dos 40”.

Cheguei a casa e contei ao meu pai. Olha, vi um antigo colega meu do Colégio, o “de quem era Fernão, o circum-navegador” – designação legal do “Um dos 40”.

- “Ah, sim?” Onde?”
- “Em Vila Franca de Xira à saída do Comboio...”
- “Ah, pois, ele está na Força Aérea na Ota, como praça e conheceu lá a filha do Major Pardal – nome fictício, e namora com ela.
- “Hummm, então está muito bem entregue, a filha do teu colega Major!...”
- “Porquê?”
- “Esquece, não é nada, com o tempo a gente vai ver...”
- “Não entendi...”
- “Deixa, são coisas cá minhas”

Seis meses depois, o meu pai disse-me que o Major Pardal tinha expulso de casa dele, o namorado da sua filha, tendo este sido inclusivamente obrigado a fugir pela janela e a se atirar do primeiro andar para a rua. Contou que tinha surpreendido o “Um dos 40” a bater na filha, durante uma discussão entre ambos, devido a ele lhe ter roubado dinheiro da mala.

Uma vez Metralha... sempre Metralha, já lá dizia o Tio Patinhas.

O Alvin saiu do Colégio passado umas semanas dos interrogatórios e das torturas físicas brutais que lhe foram infligidas colectivamente por quase todos os graduados da Quarta e os de outras e do comando, com graduação igual ou acima de Comandante de Companhia.

As mesmas torturas físicas foram-me também infligidas embora com menor intensidade.

Como inquirido e suspeito encontrava-se também presente na sessão final de investiga-pancadaria, o 459-Pardal, o qual inteligentemente, para provar que não era culpado daquele delito em particular, confessou cerca de 30 outros roubos anteriores que tinha efectuado durante a sua vida no Colégio - encheu uma folha A4 com os items e as datas.

O pardal dado ter confessado os roubos anteriores com total displicência, foi poupado às torturas e assitiu literalmente, em primeira fila, às que nos foram "ministradas".

O 459-Pardal, é hoje ironicamente, Magistrado de carreira no Ministério da Justiça.

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Posted by Jags to No Divã da "Enferma": O Botão Encarnado at 10/07/2006 01:18:45 PM