"Incrédulo e apavorado" são eufemismos que usei para não ter de relatar toda a infâmia do processo.
Não consigo aqui dizer quantas dezenas de bojardas (leia-se murros, chapadas, garrafas de whisky - vazias, claro), comi na boca, na cara, nas costas, só porque tremia com frio, de nervoso, de sede, de exaustão física e psicológica ou porque finalmente já não dizia nada coerente com nada, ou porque me esquecia ou confundia o que teria feito às 12h51m ou às 21h49m, de um dado dia três meses antes...
Lembro-me de o irmão do cabrão que me tinha furado o tímpano esquerdo um ano antes à estalada, furou-mo - ganda Homem - ganda Camarada - espero que ardas lentamente no Inferno meu grande cona que nem cornos mereces - nessa ocasião, pela segunda vez, ao murro e em grande estilo. Lembro-me que até houve aplausos na sala de leitura, porque espichou sangue do meu ouvido, "Taxi Driver" style...
Estávamos em Janeiro e lembro-me que tinha sido operado ao cotovelo esquerdo no Hospital Militar da Estrela 2 semanas antes deste processo atingir o seu auge, para retirar os 2 parafusos do braço que tinha partido gravemente ao serviço da Exma. Classe Especial de Ginástica em Maio anterior, e os meus "interlocutores", batiam-me no mesmo com pernas que tinham arrancado das cadeiras da sala de leitura da Quarta, porque eu não conseguia esticar na perfeição o braço esquerdo em "Sentido", nem unir os dois dedos mais pequenos da mão esquerda, pois nem sequer os sentia (só os comecei a sentir quase dois anos depois) após a cirurgia...
Não, esqueçam!... teria, para contar a história na sua plenitude, de vomitar (de nojo) pormenores sujos e acusações em todas as direcções - desde certos "camaradas" (com "c" de Cú) de curso, a certos "camaradas", novamente com "c" de Cú mais velhos que nos comandaram, a certos Oficiais de carreira mafiosos e frustrados, que faziam do Colégio, a sua coutada e clube privados, e local para extensão caricata do seu Ego, ou do seu pénis, ...e é melhor ficar por aqui. A sério...
Como foi possível?...
...as consequências, ou o nosso ingénuo esquecimento?
Da parte dele, imagino como terá acontecido:
...com uma enorme generosidade da parte dele...
...com uma enorme mágoa que ele ainda hoje sentirá, porque sei que, na altura, ele gostava imenso do Colégio...e do nosso curso.
...porque não lhe restou outra saída depois da vergonha que era a de ver 150 gajos (o curso original dele e o nosso) a olharem-no por cima do ombro e mais 50 graduados a foderem-lhe a vida e o corpo cada vez que dava um espirro, como aliás prometeram que lhe fariam...
...o orgulho ferido, mas ainda assim firme, com que se apresentava e dava o passo em frente quando os graduados perguntavam, por exemplo quem tinha falado na formatura no refeitório, nas semanas que decorreram após o desfecho triste da questão que o envolveu, querendo no fundo humildemente mostrar que, quando fazia merda não tinha medo de se acusar, e provando portanto, por absurdo, que quando nada fazia de mal, não tinha nada que se acusar...
O desfecho foi inconclusivo, apesar das estúpidas e desproporcionadas torturas físicas e psicológicas a que foi sujeito por tanta gente, como eu aliás também fui, apenas por que tinha um número de diferença do dele, dormia na cama ao lado dele na camarata, pelas informações que achavam que eu possuía, ou dos actos que achavam de que era cúmplice, tendo por isso me deparado, a par dele, com o fardo de ser o bode expiatório perfeito de toda a frustração e exaustão de uma Companhia (menos um par ou dois de almas) e dos ideais de Macho, que ser da Quarta - a tal que "não era a Selva" - representava.
E tudo se revelou inconclusivo, porque nada havia a concluir no que dizia respeito ao Alvin, como aliás se veio a constatar uns meses mais tarde ... tarde, de mais.
O Alvin teve a atitude certa.
Apoiado pelo pai - na altura militar em Tancos - teve uma conversa muito emotiva com ele mesmo em frente à Porta de Armas numa fria Segunda-Feira à tarde de Janeiro. Eu lembro-me de ir a passar e não ouvir o que diziam, mas quase adivinho cada palavra...
E poucas semanas depois, foi-se embora.
Cagou de alto em nós.
Mandou-nos todos, com um sorriso escondendo sofrimento, à merda, e fez ele muito bem.
Não foi ele que nos perdeu.
Fomos nós que o perdemos a ele.
Só espero que não para sempre.
Quanto a mim, acobardei-me, borrei-me todo na circunstância de poder vir a tomar o mesmo tipo de decisão, e por respeito a alguns Camaradas que me ajudaram na altura a manter-me o mais calmo e optimista possível e me apoiaram, e por medo de desapontar a minha família, continuei no Colégio.
Não me arrependo ter ficado, mas deixei de ser o mesmo e de acreditar sem reservas no puro espírito Colegial e no “Um Por Todos, Todos Por Um”, após aquele incidente.
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Posted by Jags to No Divã da "Enferma": O Botão Encarnado at 10/04/2006 02:17:16 AM